Vídeo de sertanejos é manipulado para vender falso remédio

Checagem identifica imagens e vozes manipuladas de Leonardo, Daniel e Xororó; anúncios prometem resultados rápidos e incentivam abandono de tratamento médico
Vídeos falsos exploram a imagem de famosos para atrair vítimas na internet. Artistas como Leonardo e Gusttavo Lima tiveram suas imagens usadas em fraudes distintas: uma promove supostos remédios para diabetes; outra simula campanhas de doação.
O alerta sobre vídeo de sertanejos manipulado ganha força após a divulgação desses casos. Imagens de Gusttavo Lima e de outras personalidades foram usadas em um golpe milionário de falsas doações. Já a checagem sobre produtos para diabetes envolve Leonardo, Daniel e Xororó.
Ao criar anúncios usando nomes de duplas sertanejas e seus integrantes, os responsáveis tentam aproveitar a confiança dos fãs. Os vídeos dão a impressão de que os artistas recomendam produtos, mas os registros originais não trazem essas divulgações.
Vídeo de sertanejos usa falas falsas sobre diabetes
Segundo o Projeto Comprova, anúncios no TikTok usam inteligência artificial para reproduzir imagens e vozes de Leonardo, Daniel e Xororó. As publicações promovem os produtos Stabilon e Olharix, este último apresentado como colírio.
Os anúncios prometem controlar a diabetes em poucos dias. Também atacam medicamentos prescritos por médicos e incentivam o abandono de tratamentos, incluindo metformina e insulina.
O suposto benefício é apresentado por meio de relatos pessoais falsos. As peças exploram temas como autoestima, saúde sexual e relacionamentos para despertar interesse e levar o público à compra.
Como funciona o golpe de remédio?
As publicações direcionam os usuários para páginas de venda ou conversas pelo WhatsApp. Nesses canais, o suposto tratamento é oferecido mediante pagamento, sem comprovação de eficácia para os resultados anunciados.
O golpe de remédio também usa a imagem de um suposto profissional chamado “doutor André”. Os vídeos não apresentam dados básicos que permitam verificar sua identidade, como nome completo, registro no CRM e endereço do consultório.
Durante a checagem, o Comprova tentou contato pelo WhatsApp indicado, mas o número já havia sido excluído da plataforma. O responsável pela conta no TikTok também não respondeu às perguntas enviadas.
Deepfake distorce entrevistas reais dos cantores
Daniel (Reprodução TV Globo)
Parte do material veio de uma entrevista de Leonardo ao jornalista André Piunti, publicada em maio de 2024. Outro trecho foi retirado do “Viver Sertanejo”, da Globo, em que Daniel recebeu Chitãozinho e Xororó em dezembro daquele ano.
Nos vídeos originais, os artistas não recomendam os produtos anunciados. A manipulação insere uma mensagem diferente em imagens reais, criando uma falsa associação entre os cantores e as vendas.
A checagem encontrou sinais de deepfake, como cenas repetidas, falas pouco naturais e deformações na mão de Leonardo. Uma ferramenta de análise de áudio também indicou possível voz sintética, mas esse resultado não foi a única base da verificação.
A assessoria de Leonardo afirmou ao Comprova que ele não citou nem divulgou os produtos. As equipes de Daniel e Xororó foram procuradas, mas não responderam até o fechamento da checagem.
Gusttavo Lima teve imagem usada em outro esquema
No caso das falsas doações, a Polícia Civil do Distrito Federal investigou campanhas que usavam vídeos manipulados de Gusttavo Lima e de padres conhecidos. Cinco suspeitos foram presos no balanço divulgado.
A polícia identificou quase R$ 10 milhões em transações recebidas por uma empresa ligada ao grupo. Esse valor pertence à investigação das campanhas beneficentes falsas, não à checagem dos anúncios de produtos para diabetes.
As informações apresentadas não permitem afirmar que os dois casos foram praticados pelas mesmas pessoas. O ponto em comum é o uso indevido da imagem de figuras públicas para dar credibilidade às fraudes.
Como evitar golpes com vídeos de sertanejos?
A endocrinologista Daniela Gebrim alertou ao Comprova que interromper medicamentos sem orientação aumenta os riscos de complicações. Para pessoas com diabetes tipo 1, suspender a insulina pode provocar uma emergência grave.
- Não altere nem suspenda medicamentos por causa de um anúncio.
- Desconfie de promessas de cura ou controle da doença em poucos dias.
- Confira se a campanha aparece nos canais oficiais do artista.
- Verifique a identidade e o registro do profissional citado.
- Consulte a regularidade do produto na Anvisa.
- Procure orientação de um profissional de saúde antes de iniciar um tratamento.
Quem sofreu prejuízo deve guardar os anúncios, as conversas e os comprovantes. Também deve avisar o banco e registrar um boletim de ocorrência. Em pagamentos via Pix, é possível pedir a análise pelo Mecanismo Especial de Devolução, sem garantia de recuperar o dinheiro.
A checagem sobre a promoção de falsos tratamentos com vídeos de sertanejos foi publicada pelo Projeto Comprova no SBT News. O trabalho compara os anúncios com os registros originais e reúne as respostas obtidas.
Um vídeo de sertanejos não comprova que um produto funciona ou que foi recomendado pelo artista. Antes de comprar, confira a origem da publicação. No caso da saúde, promessas em redes sociais não devem substituir a avaliação médica.
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